Crise na PF: delegado acusa Ministério de interferir em investigações e diz que instituição sofre exploração política

27 de setembro de 2014

Em matéria publicada no Jornal O Globo desta quinta-feira, dia 25, o delegado Jorge Barbosa Pontes, ex-diretor da Interpol no Brasil e adido militar na França, acusa o Ministério da Justiça de interferir nas investigações da PF e diz que a instituição sofre exploração política. “Entre 2004 e 2007, alcançamos andares da criminalidade de uma forma que não estava sendo esperada. Atingimos o coração do crime institucionalizado que tomou conta do país”, dispara o delegado, que acabou se aposentando antes do planejado. O Sindicato dos Servidores do Departamento de Polícia Federal no Estado do Rio de Janeiro ressalta que desde 2007 o Governo não negocia com os escrivães, papiloscopistas e agentes federais (os EPAs), com a categoria permanecendo mobilizada e unida na luta pela reestruturação da carreira de policial federal. Veja a reprodução da matéria na íntegra ou leia direto no site do jornal clicando no link abaixo.

Para delegado, Polícia Federal sofre exploração política

Ex-diretor da Interpol no Brasil afirma ter se aposentado em protesto

Por Evandro Éboli
25/09/2014

BRASÍLIA – Diretor da Interpol no Brasil entre 2007 a 2009, o delegado aposentado da Polícia Federal Jorge Barbosa Pontes acusou o Ministério da Justiça de interferir indevidamente nas operações de investigação da PF. Pontes disse ter ouvido de colegas que a PF vive a pior crise da história e que há uma exploração política do trabalho do órgão por parte da campanha de Dilma.

Pontes era adido militar na França e chefiava o escritório da PF em Paris. Ele retornou ao Brasil em 2012 e, segundo diz, decidiu se aposentar em protesto contra a ingerência do ministério no trabalho dos policiais.

– Quando voltei da França, percebi que a PF não era mais a mesma. Resolvi me aposentar quase como num rompante. Digo brincando aos meus colegas que minha aposentadoria foi de protesto — afirmou Pontes, que publicou artigo ontem no GLOBO com críticas ao ministério.

Para o delegado, as operações da PF só vão adiante graças a dedicação de colegas. Pontes critica o fato de o ministério dar a palavra final sobre a concessão de diárias para servidores em missões. Ele afirmou que um decreto de 2012 impôs essa prévia autorização e que, assim, as operações são indiretamente monitoradas:

— Acho que essa desconstrução, esse apequenamento que sofremos, foi de cabeça pensada. Entre 2004 e 2007, alcançamos andares da criminalidade de uma forma que não estava sendo esperada. Atingimos o coração do crime institucionalizado que tomou conta do país.

MINISTÉRIO DA JUSTIÇA SE DEFENDE

Em nota, o Ministério da Justiça afirmou que um decreto e uma portaria, ambos de 2012, preveem que a Polícia Federal e a Polícia Rodoviária Federal possuem competência para pagar as diárias de seus policiais em missões que envolvem investigação sob sigilo, com prazo de afastamento superior a 10 dias contínuos e mais de 10 pessoas indicadas para o mesmo evento. O ministério sustenta que não haveria necessidade de qualquer autorização prévia da pasta.

O decreto citado pelo ministério estabelece que o ministro é quem autoriza o pagamento das diárias. O texto afirma ainda que o pagamento pode ser feito no caso de envio de mais de dez servidores para o mesmo local se for informado o número de funcionários, relatado qual é o evento e onde será realizado. Ou seja, a PF teria que informar quantos são, para onde vão e qual a finalidade.

O delegado aposentado Jorge Pontes criticou o uso político da instituição na campanha.

— Isso causa um desconforto aos policiais federais. Nós somos do Estado brasileiro. Não gostamos de ver nenhum candidato se vangloriando de algo sobre o qual não guarda mérito algum — disse o delegado aposentado.

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