COLUNA- MARCO SCANDIUZZI – SSDPFRJ
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COLUNA- MARCO SCANDIUZZI

Marco Scandiuzzi

A minha motivação para escrever, falar ou me expressar de qualquer forma quando me pedem opinião sobre a segurança pública vem da lembrança de cada uma das pessoas, vítimas, que, um dia, entraram em uma das Delegacias onde eu trabalhei. Cada uma das vítimas que fez um registro de ocorrência, o chamado Boletim de Ocorrência, e recebeu uma folha com diversos carimbos: “à investigação”, “urgente”, “prioridade”. Cada uma das vítimas que ouviu que seria instaurado um Inquérito Policial e que nunca teve retorno sobre seus casos. Todas essas que procuraram o Estado brasileiro em busca de ver solucionado um problema e nunca tiveram uma resposta.

Ou melhor, obtiveram respostas, mas não soluções.

E as respostas obtidas dificilmente falavam das soluções dos casos, motivos pelos quais essas pessoas procuraram o Estado, na figura física das Delegacias e consequentemente dos policiais que ali exercem seu trabalho.

As polícias investigativas brasileiras se especializaram em responder, não em solucionar.

Quando se vê uma entrevista de um gestor público da Segurança Pública, inúmeros números são explicitados. Quem nunca ouviu: “os índices estão melhorando, baixamos o número de furtos e roubos na região” ou então “ vamos aumentar o patrulhamento na área” e até “ esse caso é uma questão de honra para nós”?

Estou na área da segurança pública há mais de 27 anos, sempre vinculado ao que chamamos de Polícia do pós-crime, Polícia Investigativa ou como alguns desejam Polícia Judiciária. São essas as polícias responsáveis pela elucidação dos delitos: as Polícias Civis nos Estados e a Polícia Federal na União.

É com muita tristeza que digo que nada mudou. O cidadão que entrava na Delegacia em que trabalhava no ano de 1991 recebia a mesma célebre frase que um cidadão ainda recebe nos dias de hoje: “Vamos instaurar um Inquérito Policial para apurar”. Ele saía, como também sai hoje, com um papel em suas mãos e uma esperança de ter sua reclamação solucionada.

Mas nunca, ou melhor, quase nunca, havia uma solução. E, tal lá, como cá, hoje ainda não as tem.

Isso repercute no meio em que vivemos.

Há uma balança que pesa no sentido inverso. Quanto maior o número de casos solucionados em um tempo e espaço, maior a sensação de segurança entre as pessoas. Quanto menor o número de casos (crimes) solucionados, menor a sensação de segurança.

Olhando esses dados, pensando nas centenas, milhares de pessoas que atendi, lembrando dos seus olhares, não nos resta, além de trabalharmos pela mudança, sonhar que, um dia, os gestores da segurança pública vão, nas entrevistas, trocar os dados genéricos usados para mascarar a situação e passar a falar sobre as soluções dos crimes.

Sonho o dia em que os gestores irão chamar as pessoas nas Delegacias para lhes informar que seus casos foram solucionados e que elas podem voltar tranquilamente para seus lares.
Quando isso vai acontecer? Eu não sei, mas sonho em ver algo que vemos nos países que praticam modelos diversos dos nossos. 
Sonhar não custa nada, ainda mais quando sabemos que a próxima vítima pode ser qualquer um de nós.

MARCO ANTONIO SCANDIUZZI
– Foi Policial Civil e Policial Federal.
– Participou de mais de 100 Operações Policiais durante sua carreira.
– Formado em Administração de Empresas com Comércio Exterior.
– Especialista em Execuções de Políticas de Segurança Pública.
– Professor da Academia Nacional da Polícia Federal em Brasília/DF de 2005 a 2014.
– Diretor de Estratégia e Pesquisas da ANEPF.
– Autor de Estudo sobre a Gestão de Recursos Humanos na PF (2007).
– Autor do Caderno Didático de NPCART do Curso de Formação da Academia Nacional da PF (2005, última atualização 2014).
– Autor do livro CLANDESTINO, 2009 (ISBN 9788560800049).
-Autor do livro EU, _, ESCRIBA, 2013 (ISBN 9788536628011).
– Autor do livro A SEGURANÇA PÚBLICA DE DENTRO PARA FORA , 2018 ( ISBN 9788585214128).
-Não nega o seu amor pelo Santos Futebol Clube.