Renato Lombardi concedeu entrevista exclusiva para SINDPOLF/SP
Se vasculharmos na internet, encontraremos diversos trabalhos do jornalista e comentarista de segurança Renato Lombardi. Há momentos históricos como em 1983, em que ele dá uma entrevista para Fausto Silva, diretamente do Estadão para o extinto programa “Comando da Madrugada”- TV Gazeta. Ou ainda, um comentário no Jornal da Cultura, sobre a Operação Chacal realizada pela PF em 2004. Não é por menos. O italiano de Nápoles, Renato Lombardi é jornalista há 40 anos. Um percurso que trouxe vivência profissional e postura coerente em seus comentários sobre segurança pública.
Lombardi começou sua carreira como contínuo no Jornal Última hora, em Santo André. Apesar de sua preferência pelo jornalismo esportivo, na época só havia uma vaga para reportagem policial, na qual entrou e não saiu mais. Trabalhou no jornal Notícias Populares, na sucursal de O Globo e Estadão, como repórter especial. Ao mesmo tempo, atuou na Rede Bandeirantes de Rádio e TV. Atualmente ele pode ser visto na Rede Record de Televisão como comentarista. Quando há um tempinho, consegue praticar tênis que é seu hobby e dedicar-se a uma boa leitura.
Acompanhe a entrevista que o jornalista deu para o SINDPOLF/SP :
SINDPOLF/SP - Como jornalista policial e pela experiência adquirida em seu trabalho, o que considera necessário para que nosso país tenha uma melhoria na questão de Segurança Pública?
RENATO LOMBARDI - Existem alguns fatores para a melhoria da segurança em nosso país no meu modo de entender. A primeira é pagar bem o policial. A segunda é prepará-lo, dar-lhe todas as condições de enfrentar uma criminalidade cada dia mais organizada e mais atuante. Depois é preciso que esse trabalho tenha o respaldo do Ministério Público, seja estadual ou federal, o apoio do Poder Judiciário e político. Com esse apoio fatalmente o trabalho será mais eficiente, mais consistente, e ai a aprovação cada vez maior da população será consequência.
SINDPOLF/SP - A sociedade conclama por mudanças urgentes no Código Penal. Como o senhor vê essa questão?
RENATO - Já perdi a conta do que já falei em microfones e escrevi nos jornais sobre a mudança do Código Penal. Velho, arcaico, ultrapassado. Dezenas de projetos foram criados. Antes terminavam em pilhas e pilhas de papel nas gavetas de gabinetes de autoridades e políticos. Hoje estão na memória dos computadores. Comissões ao longo desses anos foram criadas para modificar o Código. Mas na grande maioria delas faltou fazer parte dos grupos quem realmente lida com o crime: policiais civis, federais e militares. É preciso ouvir aqueles que enfrentam todos os dias a criminalidade: criminalidade das ruas e dos gabinetes, os chamados colarinhos brancos, também tão danosos, ou mais, do que os criminosos comuns. Mas os escolhidos são sempre aqueles que ficam em salas com ar condicionado, café quente, àgua gelada, e sabem da criminalidade pela leitura dos jornais.
SINDPOLF/SP - O senhor vislumbra uma possibilidade de um dia, as três polícias (civil, militar e federal) trabalharem em um sistema único de informações, onde todos possam compartilhar dos mesmos dados, visando agilidade no combate ao crime?
RENATO - Seria o ideal. Enquanto o crime se organiza, se estrutura, tem laços em todo o país, as polícias continuam falando línguas diferentes. As informações dos setores de inteligência das polícias – civil, militar, federal – serviriam para acelerar o trabalho de apuração e permitir um combate direto e rápido ao crime. No meu modo de ver as informações na maioria das vezes são obtidas pela amizade de um policial federal com um oficial da PM ou com um delegado da polícia civil. Ou através de ofícios e aí entra a burocracia. Contra o crime que está ai hoje não deve haver burocracia. O trabalho conjunto das três instituições seria fundamental para combater o crime, a corrupção, os desvios.
SINDPOLF/SP - De que forma vê o trabalho que a Polícia Federal vem desempenhando nos últimos anos?
RENATO - Acompanho a Polícia Federal há mais de 30 anos. Comecei a fazer cobertura quando a PF funcionava ainda num prédio da Rua Xavier de Toledo, no centro da cidade. Com o passar dos anos ela se preparou, vem se destacando, mas ainda necessita de meios, muitos meios. As investigações da Polícia Federal poderiam ser mais aprofundadas. Para se ter uma idéia a estrutura é quase zero nas fronteiras – secas e molhadas – no combate principalmente ao tráfico de drogas. Hoje a polícia federal tem responsabilidade imensa, pois atua em todas as frentes. Perto daquela PF que comecei a acompanhar, chefiada por militares, a de hoje pé mais ágil e tem um funcionário da própria instituição em seu comando. Melhorou muito conseguindo mais credibilidade e confiança do povo.
SINDPOLF/SP - Como fica o seu lado pessoal diante do profissional, que muitas vezes precisa da imparcialidade? Há envolvimento?
RENATO - Sempre pautei minha profissão pela imparcialidade. Sempre me preocupei em ser justo e ético em minhas reportagens. Sempre ouvi o outro lado dos que poderiam se sentir atingidos pelas publicações e comentários. Jamais misturei trabalho com amizade. Eu costumo dizer que o jornalista pode até ter amizade com suas fontes, mas não pode passar do trabalho. Jamais frequentei a casa de uma autoridade. Já pensaram como ficaria o jornalista que for a uma festa na casa de uma autoridade e ter que escrever depois contra essa mesma autoridade?
SINDPOLF/SP - Em todos esses anos, alguma reportagem mexeu diretamente com o senhor, de tal forma que o tenha marcado profundamente? Poderia nos contar?
RENATO - Sempre que envolve criança e idoso me machuca muito mais. Até hoje faço um trabalho de não me embrutecer. Não é normal encarar as tragédias com naturalidade. Achar que é normal. Falei das crianças e o que me vem à mente – além da menina Isabela Nardoni – jogada pelo pai e madrasta do sexto andar -, é o caso do menino Ives Ota, sequestrado e morto aos oito anos. Dois dos criminosos eram policiais militares. Um deles segurança do comércio do pai do menino. O outro, um motoboy. Este enterrou o corpo do menino Ota no quarto onde dormia o filho e colocou o berço em cima do cimentado onde estava o corpo do pequeno sequestrado.
SINDPOLF/SP -Como é sua convivência com a polícia? E em especial com a PF?
RENATO - Pela maneira que sempre me comportei em meu trabalho no dia a dia, seja num quartel, num setor da PF, numa delegacia ou departamento da Polícia Civil nunca tive problemas e as portas sempre se abriram. No caso da Polícia Federal conheci dezenas de policiais. Cobri fatos que repercutiram no mundo como o caso Tommaso Buschetta, o mafioso preso pela PF em São Paulo e que com suas informações ao FBI detonou a máfia siciliana em Nova York e outras cidades americanas. A descoberta da morte em São Paulo do médico nazista Josef Mengele. A prisão de inúmeros traficantes e responsáveis pelos crimes do colarinho branco como recentemente o caso Daniel Dantas. A Polícia Federal é a principal polícia do País. Repito: se derem mais condições o trabalho será muito melhor.
Fonte: SINDPOLF/SP



