Ocupação da Rocinha sob suspeita

Nos últimos dois meses, foram registrados oito assassinatos à bala, parte deles, suspeita-se, ligada diretamente à disputa pelo controle da venda de drogas

 

Militares e moradores acompanham a cerimônia de hasteamento das bandeiras na favela da Rocinha, no Rio de Janeiro

Militares e moradores acompanham a cerimônia de hasteamento das bandeiras na favela da Rocinha, no Rio de Janeiro (Cléber Jr./Ag. O Globo)

 Ocupada pela polícia há quatro meses, a favela da Rocinha, na zona Sul do Rio, está longe de ser considerada uma área pacificada. Nos últimos dois meses, foram registrados oito assassinatos à bala, parte deles, suspeita-se, ligada diretamente à disputa pelo controle da venda de drogas, que persiste, apesar de enfraquecida depois da prisão do chefão Antônio Francisco Bonfim Lopes, o Nem. VEJA desta semana revela detalhes de uma investigação que mostra que o velho mecanismo que associava traficantes e policiais militares pode estar mais ativo do que supõe quem acompanha a “pacificação” apenas olhando a favela a partir do asfalto.

 

A secretaria de Segurança do Rio apura denúncia de que policiais militares estariam recebendo propina do tráfico. Um dossiê produzido pela coordenadoria de Inteligência da Polícia Civil aponta inclusive as cifras da corrupção policial. De acordo com o documento, o pagamento consiste numa “entrada” de 200 000 reais, seguida por um “mensalinho” de 80 000 reais por mês. Os valores comprariam a tranquilidade para manter o comércio de drogas sem interferência da polícia nas ruas internas e becos. Enquanto isso, o patrulhamento ficaria restrito às vias principais da favela e acontece sem a exibição de fuzis.

 
Hoje, dois ex-braços direitos de Nem travam uma guerra pelo comando da quadrilha. O traficante Amaro Pereira da Silva, conhecido como Neto, 30 anos, responde pela venda de drogas no parte próxima ao asfalto – a mais lucrativa. Um ex-comparsa do chefão preso, Inácio de Castro Silva, 32 anos, atua na parte alta da Rocinha e é suspeito de ser o mentor do assassinato do líder comunitário Vanderlan Barros de Oliveira, o Feijão.

 
UPP e propina - Em setembro do ano passado, outro esquema de pagamento de propina a policiais veio à tona na UPP dos morros da Coroa, Fallet e Fogueteiro, no bairro de Santa Teresa. Assim como na Rocinha, os traficantes subornavam os policiais com o intuito de contar a conivência da UPP na venda de drogas. O comandante da unidade, inaugurada seis meses antes, acabou sendo afastado. A mesada dos PMs variava de 400 reais a 2 000 reais, de acordo com as patentes e o grau de influência na UPP.

 

Fonte: Revista Época

É urgente conter a banda podre no Rio

São esclarecedoras as descobertas da Polícia Federal sobre as atividades do traficante Nem

Embora previsíveis, são assustadoras (e esclarecedoras) as descobertas da Polícia Federal sobre as atividades do traficante Nem, que comandava o esquema de venda de drogas na Rocinha e foi preso em novembro do ano passado. As revelações alcançam duas pontas do império que o bandido montou na favela assentado no terror e num esquema de corrupção que envolve agentes públicos da área de segurança.

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Os escravos do tráfico na Rocinha

Nem e sua quadrilha aliciaram 212 pessoas, quase todas moradoras da favela, que acabaram denunciadas em processo que tramita na 36ª Vara Criminal do Rio de Janeiro. Se condenadas, podem pegar de cinco a 15 anos de prisão.

Da Revista Época

Edmilson de Oliveira Ribeiro, de 55 anos, mora num barraco de dois cômodos com paredes cheias de mofo no alto da Rocinha. Deficiente mental, ele só sai de casa acompanhado. A família teme que, numa de suas crises, ele se perca pelas ruas. Gari aposentado por invalidez, Edmilson toma 36 comprimidos por dia, de 12 medicamentos diferentes. Há três anos, sua companheira estava internada, e Edmilson precisou ficar sozinho.

Aproveitando-se da situação, uma mulher bateu a sua porta e lhe ofereceu R$ 40 para comprar 1 litro de éter no centro da cidade. Para ele, era a chance de provar que ainda podia fazer algum trabalho e ganhar uns trocados. Edmilson acabou denunciado pelo Ministério Público por associação com o tráfico de drogas. Ele diz que não sabia, mas o éter que comprou foi usado para refinar cocaína.

“Bateram aqui e me ofereceram 40 contos para eu fazer um serviço de boy. Não achei nada demais”, diz. Ele foi usado num esquema montado para preparar a droga dentro da Rocinha. Por trás do aliciamento sórdido, estava o traficante Nem, preso na semana passada numa bem-sucedida ação de ocupação da Rocinha pela polícia.

Nem e sua quadrilha aliciaram 212 pessoas, quase todas moradoras da favela. Elas foram denunciadas pelo mesmo motivo que o ex-gari Edmilson, de acordo com o processo que tramita na 36ª Vara Criminal do Rio de Janeiro, a que ÉPOCA teve acesso. Se condenadas, podem pegar de cinco a 15 anos de prisão.

É possível que no grupo muitos soubessem exatamente o que estavam fazendo. Boa parte, porém, provavelmente não fazia ideia ou não teve coragem de negar um pedido do chefão do tráfico no morro. Nem, como todo bandido que comanda áreas empobrecidas, se aproveitava da comunidade. Na ânsia de lucrar mais com seu negócio, não poupava nem mesmo um deficiente mental.

A maioria dos traficantes brasileiros não refina cocaína, compra o pó pronto. Nem logo percebeu que poderia lucrar mais. Segundo o jurista Walter Maierovitch, ao transformar pasta-base de coca em cocaína pura, o lucro com a droga sobe 40%. O refino, porém, traz uma dificuldade adicional: é necessário comprar produtos químicos de venda controlada. Por isso, Nem teve a ideia de recrutar duas centenas de moradores para fazer compras pequenas, que não chamassem a atenção. Os moradores iam semanalmente a uma loja no centro do Rio para comprar éter, acetona, ácidos sulfúrico e clorídrico e álcool P.A., de alto grau de pureza.

O bando de Nem se aproveitava também de mototaxistas que levam e trazem encomendas da Rocinha. Pelo menos 20 foram usados no esquema. Anderson Menezes Alencar, de 27 anos, conta que um desconhecido ofereceu a seus colegas de ponto R$ 40 para buscar produtos no centro do Rio. Sem fazer muitas perguntas e tratando o desconhecido como um cliente qualquer, ele recebeu uma lista com cinco produtos, um cartão com o endereço da loja e R$ 190 – R$ 150 para comprar os produtos e o restante pela corrida.

“Quando comecei a ouvir que era ilegal, não fui mais. Nunca imaginei que fosse coisa perigosa.” Depois do episódio, largou o táxi. Hoje, trabalha numa locadora de vídeo, no Jardim Botânico. Assustou-se quando recebeu a visita de um oficial de Justiça, no começo de 2010. “Se soubesse que era para isso, nunca teria feito.”

A estratégia dos traficantes começou a ruir em março de 2009, quando policiais fecharam dois laboratórios de refino de cocaína na Rocinha. A 15ª Delegacia de Polícia Civil passou a investigar a origem dos insumos e o “esquema de formiguinhas para a compra de produtos químicos”. Depois da primeira prisão, a polícia esmiuçou os registros de compra na loja. Da apuração, resultou a denúncia criminal contra os 212 indiciados.

O caso é só mais uma das barbaridades cometidas pela quadrilha de Nem na Rocinha. Quem não dava guarida a bandidos em fuga perdia a casa e tinha de deixar a favela. Surras e execuções eram comuns, e, quanto mais gente visse as atrocidades, melhor – Nem acreditava que isso impunha respeito. “Minha filha tem problemas de tanto ouvir gritos. Eles passavam arrastando as pessoas por aqui”, diz uma moradora. O cantor MC Marquinhos foi assassinado. Por quê? Apenas por ter cantado em uma favela controlada por uma facção rival. O poder de fogo da quadrilha de Nem foi provado com a ocupação da Rocinha: em quatro dias, a polícia apreendeu 132 armas, entre elas 75 fuzis.

Uma semana depois da ocupação da comunidade, o novo “dono do morro” – o Estado – também é fonte de preocupação. As queixas de truculência são poucas, em comparação com a ocupação do Morro do Alemão, mas existem. Um morador afirma que policiais do Batalhão de Operações Policiais Especiais (Bope) perguntaram por drogas e armas e invadiram o quarto onde sua filha de 8 meses dormia. “Disseram que iam me matar se eu não mostrasse as drogas, mas não tenho nada”, diz. O Bope promete investigar as denúncias.

Com incidência de dengue cinco vezes maior que no resto da cidade, a Rocinha finalmente recebeu a visita de agentes de saúde, antes proibidos pelo traficante de entrar. A Secretaria de Trabalho está montando cursos de capacitação profissional. Com a perspectiva de dias melhores, o preço das casas subiu quase 50%. TV a cabo, antes irregular, agora é oferecida a R$ 50, oficialmente.

Guardas municipais apareceram para controlar o caótico trânsito pelas vielas da favela. É nessa nova Rocinha que o recém-nascido Anderson Lucas vai crescer. Sua mãe, Evelin Araújo, de 17 anos, deu à luz no hospital, pouco antes de a polícia começar a subir as escadarias da Rocinha. Evelin diz ainda não ter pensado no que seus filhos farão quando crescer. Um futuro de humilhação, nas mãos de traficantes, ficou mais distante.
Fonte: Revista Época

PF indicia advogados presos em carro com traficante

Advogados presos com o traficante Antônio Francisco Bonfim Lopes, conhecido como Nem, e apontado como chefe do tráfico na favela da Rocinha, são acusados pelos crimes de corrupção ativa e favorecimento pesso

A Polícia Federal indiciou na sexta-feira (18/11) dois advogados presos com o traficante Antônio Francisco Bonfim Lopes, conhecido como Nem, e apontado como chefe do tráfico na favela da Rocinha. os advogados são acusados pelos crimes de corrupção ativa e favorecimento pessoa. Em depoimento na PF, Luiz Carlos Azenha e Demóstenes Armando Dantas Cruz alegaram que estavam conduzindo Nem na mala do carro em que estavam para que o traficante se entregasse no Distrito de Polícia da Gávea, no Rio. A reportagem é do jornal O Globo.