Aposentado premiado na década de 60 por prender bandido que matara dois policiais, aprova a gestão do presidente Telmo à frente do SSDPF
O policial federal aposentado Hevanny Euclides da Silva, 89 anos, tem muita história para contar em seus mais de 40 anos de serviços prestados à polícia brasileira. Na década de 50, quando o Rio de Janeiro ainda era a capital da República, integrava a Polícia Civil do então Distrito Federal, batizada de Departamento Federal de Segurança Pública (DFSP), hoje DPF. Investigava homicídios, roubos, assaltos e outros crimes, comuns desde aquela época.Em 1960, Hevanny foi um dos poucos policiais do antigo DFSP que atuavam no então Estado da Guanabara que aceitaram ir para Brasília, participar da inauguração da nova capital federal, no governo do presidente Juscelino Kubitscheck. “Fizeram tudo para eu ficar lá, mas eu não quis e voltei para o Rio”, conta ele. Hoje, o policial aposentado se orgulha de fazer parte da história da PF. E comemora o reconhecimento pelo trabalho com uma medalha da Associação de Delegados da Polícia Civil do Rio, recebida das mãos da delegada Marta Rocha, chefe da Polícia Civil.
Orgulho da PF
Para ele, a Polícia Federal sempre foi e continuará sendo uma das poucas instituições que ainda merecem respeito neste País. Sobre a atuação da PF de hoje, ele comenta, com simplicidade: “A Polícia Federal prende de montão, às dúzias, mas não é ‘pé inchado’ não; é só gente graúda, gente que está lá no alto. Para pessoas de má conduta, a nossa polícia não deve estar sendo bem vista não”, diz, sorrindo.
O aposentado é um dos ativos participantes das atividades do SSDPF/RJ e fala com entusiasmo sobre a gestão do atual presidente, Telmo Correa. “Ele fez uma sede linda, espetacular, digna dos policiais federais do Rio. Eu confesso que não votei nele, mas estou torcendo para ele ser reeleito. Ele realmente tem se esforçado na defesa dos nossos colegas”, elogia Hevanny, que marcou presença na missa em homenagem aos 21 anos do sindicato, em agosto. Morador da Pavuna, no subúrbio do Rio, senhor Hevanny é casado há 63 anos com dona Letícia, com quem tem um casal de filhos e um neto.
Uma prisão que ficou marcada na memória
Hevanny já perdeu a conta de quantas prisões efetuou ao longo da carreira. Modesto, prefere dizer que teve a sorte de estar no lugar certo, na hora certa. Mas um fato foi marcante em sua vida: a prisão de um conhecido bandido, apelidado de Bartinho, na favela de Parada de Lucas, na Zona da Leopoldina, durante a gestão do chefe de Polícia do então Distrito Federal, general Amauri Kruel, no início da década de 60.
O corajoso Hevanny trabalhava na Invernada de Olaria, na subseção da Polícia de Vigilância, repartição muito respeitada numa época em que ‘polícia era polícia e bandido era bandido’. “Malandro tinha pavor só de ouvir esse nome”, lembra Hevanny.
E não era para menos: a Invernada era temida como o ‘quartel-general’ do Esquadrão da Morte, grupo paramilitar que atuava nos anos de chumbo (décadas de 60 e 70) no Rio de Janeiro, ao qual diversos autores e especialistas em segurança pública atribuem a morte de centenas de criminosos comuns e militantes de esquerda.
Hevanny conta que foi preciso apenas um grito para que o bandido se rendesse e entregasse sua arma. “Não tinha algemas naquela época: a gente pegava o bandido por trás e prendia. Ele se ajoelhou e pediu pra que eu não o matasse”, recorda-se o policial, que estava sozinho e sem viatura na operação. “Tive que pedir um carro e outro companheiro para voltar. E o bandido ainda teve que me ensinar o caminho para sair da favela”, conta ele.
Quando chegou à Invernada, os colegas da corporação se revoltaram contra Hevanny, por ele ter trazido o bandido vivo. Afinal, entre outros crimes, Bartinho era acusado de matar dois policiais, o que, à época, poderia lhe valer a sua própria execução. Então, Hevanny bradou: ‘O que eu não fiz com vagabundo, faço com qualquer um de vocês’.
O ato de bravura e respeito aos Direitos Humanos, numa época em que nem se falava disso, lhe rendeu o reconhecimento público. A imprensa toda o elogiou e dias depois, ele foi chamado pelo general Diógenes Sarmento, que fez questão de conhecer o policial que havia prendido o bandido que ousara matar policiais.
Um delegado o levou até o gabinete do general, que chamou seu ajudante de ordem, coronel na época, e disse que isso não poderia se repetir. E, como recompensa, recebeu cinco ‘abobrinhas’ (cédulas de mil cruzeiros, de cor abóbora, fabricadas de 1947 a 1973, que circulavam durante o governo JK). “Logo depois, soube que o bandido havia suicidado na cadeia”, conta Hevanny.
História: A temida Invernada de Olaria
Oficialmente, a Invernada de Olaria era sede do Serviço de Diligências Especiais (SDE), grupo especial de combate à criminalidade, criado pelo general Amauri Kruel em fins dos anos 50 para eliminar bandidos que aterrorizavam a população e prejudicavam o comércio no Rio de Janeiro. Este segmento da Polícia Civil foi originado após a extinção da Policia de Vigilância (PVG) do ex-Estado da Guanabara.
Mais da metade dos 12 ‘Homens de Ouro’ do SDE vinha da temida Polícia Especial, criada por Getúlio Vargas durante o regime do Estado Novo. O grupo era formado por delegados famosos como Milton Le Cocq, Mariel Mariscotte de Mattos e o hoje deputado Sivuca, autor do polêmico slogan ‘bandido bom é bandido morto’. Após o assassinato do delegado Milton, surgiu a Scuderie Le Cocq, para vingar a morte de um dos líderes dessa força de elite.



